Como é que se define o índice de competitividade global de uma cidade, tendo em conta as principais variáveis económicas?
Entendemos por competitividade toda a “ameaça credível”, segundo a terminologia da Teoria dos Jogos, de um crescimento sustentado. As variáveis aferidas são necessariamente variáveis que nos demonstrem o estado dos factores de produção. Hoje em dia, na sequência dos trabalhos dos principais autores da Teoria do Crescimento Económico (como Solow, Romer ou Blanchard), a dimensão factorial é entendida na sua máxima abrangência possível, logo devem ser estudadas, de um modo optimizado, as diversas famílias de factores de produção e não unicamente os clássicos “Capital” ou “Trabalho”. O trabalho que assinei com Júlio Barbosa sobre a competitividade das cidades capitais de distrito em Portugal recorreu, por isso, previamente, a todas as variáveis da publicação do Instituto Nacional de Estatística “Atlas das Cidades de Portugal”.
Em termos comparativos, como é que se define uma cidade competitiva e, por outro lado, uma cidade com défice de competitividade?
A “cidade com défice de competitividade” pode ter crescido no passado mas já não cresce (ou cresce menos) em dimensões de bem-estar populacional no presente. A cidade competitiva gera um bem-estar crescente para os seus habitantes. A “cidade com défice de competitividade” é suportada pelos residentes. A cidade competitiva é amada pelos seus residentes. A “cidade com défice de competitividade” afasta a população. A cidade competitiva atrai população. A “cidade com défice de competitividade” vive ameaçada pelo desemprego, pelo encerramento dos investimentos locais, pela degradação do parque habitacional, pelo abandono. A cidade competitiva gera trabalho, atrai agentes e decisões, rejuvenesce, vigora.
Como é que explica a seguinte afirmação: a competitividade é relativa e não absoluta?
Qualquer conceito humano é relativo. O domínio do Absoluto entra na Metafísica. Quando defendemos um conceito mais recente de competitividade dos espaços estamos a subjectivar ao “hoje” um conceito de competitividade “de ontem”, onde um espaço competitivo era o mais produtivo – o erro estava em julgar-se que o padrão de produtividade de “ontem” é o mesmo de “hoje”. A cidade competitiva apoia-se em rendimentos crescentes à escala, redescobrindo novos factores produtivos quando os antigos entram em patamares de estacionaridade.
Como sintetiza as principais conclusões do estudo que coordenou sobre os índices de competitividade das Cidades Capitais de Distrito?
Em primeiro lugar, que importa que as nossas cidades mais desenvolvidas (que não são aprioristicamente as mais competitivas) redescubram os factores produtivos, como o reforço da Formação e Re-formação do Capital Humano, do Empreendedorismo dos Agentes e das potencialidades das Novas Tecnologias. Em segundo lugar, que algumas das nossas cidades menos desenvolvidas (como o caso paradigmático de Évora), efectivem a “ameaça” de crescimento sustentado. Como referido por uma célebre alocução clássica, querer e não poder é impotência, mas poder e não querer é malícia. Portanto, que os nossos agentes decisores (públicos e privados) desses espaços catalogados como competitivos, queiram efectivar o potencial declarado.
De que forma os indicadores demográfica, laboral, empresarial e conforto se podem distinguir no âmbito da competitividade global de uma cidade?
São factores clássicos, logo vieram demonstrar que a aposta unicamente nestes pilares não é suficiente para garantir a longo prazo, por exemplo, o segundo rendimento per capita do Porto a nível da amostra nacional. A orientação aqui é óbvia – ou o Porto ultrapassa com a qualidade do Capital Humano (reflexo das sinergias entre as instituições de Ensino Superior), com a melhoria de um parque habitacional depauperado e envelhecido e com o estancamento da fuga das unidades decisórias (produtivas ou políticas) o actual estado (alternativamente identificado pela Associação Comercial do Porto e por outros trabalhos de índole mais académica), ou então o patamar de desenvolvimento alcançado pode resvalar.
“A cidade de Évora é a mais competitiva das 18 capitais de distrito do Continente, à frente de Lisboa, enquanto o Porto ocupa o último lugar”. Como é que isto se pode explicar na perspectiva dos índices de competitividade?
Évora tem o maior potencial de crescimento ainda com os factores clássicos das quatro dimensões acusadas (demográfica, laboral, empresarial e de conforto). E tem agora um fantasma de Futuro: o de mais tarde comentar-se “Évora poderia ter sido… mas não foi”. Mais uma vez, importa concretizar o potencial.
“O estudo identifica uma presença de competitividade em sub índices que, até agora, não eram devidamente valorizadas, como a competitividade demográfica, uma vez que, em média, as cidades do interior estão a crescer mais do que as congéneres do litoral”. De que forma explica esta conclusão, tendo em conta que o interior é muitas vezes visto como locais de empobrecimento constante?
Há dois tipos de explicações imediatas. O primeiro é de natureza aritmética. Se uma população crescer dos 50 para os 70 habitantes tem um crescimento proporcional maior que o da população que cresceu dos 5 milhões para os 6 milhões. O segundo tipo, que desenvolvo no artigo “Tendências de concentração regional no interior português”, publicado na Regional and Sectorial Economic Studies (volume 6-1), identifica que as cidades do interior oferecem-se (a par das vilas) como os primeiros locais de paragem das populações rurais no sentido do litoral ou da emigração – se uma família de uma aldeia encontra condições de trabalho e de habitabilidade na sede de concelho ou numa cidade próxima, tende a fixar-se aí, despovoando a sua aldeia, aumentando esses espaços centrais regionais, e só posteriormente equacionando distâncias maiores.
Biografia
Assistente do Departamento de Economia da Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho e autor dos estudos “A importância do desenvolvimento regional na localização de equipas de futebol profissionais. O caso português 1970-1999” e "As diferenças de competitividade entre o litoral e o interior português".
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